Justificativa
"Me desculpe, eu faço teatro". Essa foi a frase usada nos anos 90 por um antigo grupo de teatro de Limoeiro do Norte. Na cabeça, a ideia de quem exercita a mente e o corpo para o alternativo, por vezes contestatório de quem quer dizer "me desculpe, sou diferente". É a arte a serviço da inventividade, tendo como principal instrumento o corpo, a voz - ao contrário das outras artes, o teatro permite a obra sem cenários, figurino ou maquiagem. É o homem no centro, plateia ao redor, e o talento mediando isso tudo. A arte é uma força poderosa no combate à violência. No teatro, desenvolvemos toda a nossa capacidade humana, a consciência do próprio corpo, das próprias emoções; e o mais importante, a reflexão sobre a realidade e a possibilidade de ser o outro, criando assim a capacidade de ter empatia, o que torna a violência praticamente impossível.
Aos 15 anos, Mayra Meireles é quase uma adolescente como qualquer outra: ainda tem cara de menina, sorri timidamente, começa respondendo qualquer pergunta falando "não sei" e faz caras e bocas ao tentar explicar seu ponto de vista. A diferença entre ela e muitos adolescentes brasileiros é que Mayra afirma que "não tenho sonhos". Talvez seja, explica, porque nunca esteve numa sala de cinema - "a claridade é só da tela, né?" -, nunca entrou num teatro, nunca viu um show - "gosto do Sorriso Maroto e do Belo" -, nunca teve a chance de se aventurar nas páginas de muitos livros - "Biblioteca? Nunca fui. Só li a Bíblia e um livro do Vinicius de Moraes, que gostei" - ou esteve no circo. A menina, que nasceu em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e foi criada no bairro Chapéu do Sol, em Xerém, na Baixada Fluminense, é a caçula de uma família - pai, mãe e dois irmãos - que também nunca estiveram em nenhum desses lugares.
- Não fui criada vendo peças de teatro, ouvindo música ou saindo para passear. Meu pai gosta de ficar em casa e minha mãe nunca teve ânimo nem para nos levar ao circo, que vinha raramente para a cidade. Então, vivo com os pés no chão, sei qual a minha realidade. Vou à escola, namoro, às vezes vou ao Sítio do Zeca (Zeca Pagodinho, filho ilustre de Xerém) para andar a cavalo e vejo um pouco de TV - conta Mayra, que vive numa cidade sem cinema, teatro, biblioteca ou museu. "Não sinto falta do que não tive".
No Brasil, segundo dados da Pesquisa de Informações Básicas Municipais feitas pelo IBGE em 2009, somente 1,5% dos municípios tem teatro/sala de espetáculo. Portanto levar teatro, em particular o de improviso, se justifica como uma abertura de horizontes para pessoas como Mayra.
Justificamos o projeto ‘Comédia Improvisada' para acrescentar à programação de Belo Horizonte que é referência para as cidades do interior de Minas.
Entretanto, muito do que se produz em São Paulo e Rio de Janeiro, grandes polos de produções teatrais, continua sem seguir para Belo Horizonte por falta de recursos financeiros para a manutenção das temporadas.
Tal fato amplia a margem de risco para o produtor local. Assim, a saída para os mesmos é muito limitada e envolve sempre um grande risco financeiro e profissional, por estar sempre vinculada à presença de público. Com este cenário desfavorável, as produções nacionais não conseguem se deslocar dos grandes centros com facilidade e segurança.
A saída dos espetáculos dos grandes centros é evitada pelas equipes, por vislumbrarem possíveis prejuízos.
Oferecer uma boa estrutura de produção, com cachês, passagens aéreas, divulgação (mídia paga), hospedagem, alimentação, entre outros, estimula esta descentralização e a difusão cultural.
A Lei Federal de Incentivo à Cultura é um instrumento com resultados efetivos na captação de recursos no setor cultural e por isso é fundamental que seja elaborado um trabalho de seleção e apresentação de espetáculos, como os que iremos apresentar no ‘Comédia Improvisada'.
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